A memória dos cinemas de bairro e o que sumiu com eles
Em São Paulo, salas que lotavam aos domingos viraram igreja, estacionamento, nada. Um ensaio sobre a cidade que se apaga devagar — e sobre os rastros que ainda existem no chão.
O Cine Brazilian, na Rua Aurora, fechou em 1997. O edifício virou templo evangélico. O Cine Marabá, na Rua Vigota, virou estacionamento. O Cine Rosália, em Santana, virou bingo — e depois, nada. Os três deixaram vestígios. Um letreiro torto, uma bilheteria fechada com tábua, uma marquise onde ainda se lê, em letras descascadas, o nome de um filme que ninguém mais vê.
Caminhei por duas semanas procurando esses vestígios. Não sou arquiteto nem historiador. Sou um repórter que cresceu indo ao cinema de bairro e queria entender por que as salas sumiram — e por que dói tanto.
O domingo que não volta
Meu pai me levava ao cinema todo domingo. Não era evento. Era rotina. Colocava a camisa, passava pomada no cabelo, me dava a mão na esquina e a gente andava até a sala mais próxima. Naquele tempo, não era preciso ir ao shopping. O cinema estava no bairro. A lista de filmes mudava toda semana. O ingresso era barato. A pipoca cheirava a pipoca.
Foi assim durante décadas. As salas de exibição espalhavam-se pelas capitais, uma em cada esquina que se preze. Em 1975, o Brasil tinha mais de 3.500 salas, segundo registros da época. A maioria ficava fora dos shopping centers, porque shopping centers ainda eram novidade.
Aos poucos, as salas foram morrendo. Primeiro o videocassete, depois a pirataria, depois o streaming, depois a pandemia. Hoje, segundo o Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, o número de salas no país é menor do que a metade do pico dos anos 1970 — e está concentrado em shoppings de classe média.
O que ficou no lugar
Caminhar atrás dessas salas é um exercício de arqueologia urbana. Na Avenida Celso Garcia, no Brás, encontrei três endereços que já foram cinema. Um é agora uma loja de materiais de construção. Outro, uma farmácia. O terceiro, um salão de festas infantis com pula-pula colorido na fachada.
Nenhum guarda a memória do que foi. As marquises foram trocadas, os letreiros apagados. Mas, se você souber olhar, encontra o teto rebaixado estranho, o desenho da sala ainda reconhecível por trás do forro de PVC. É um cinema fantasma.
Falei com donos de salas que ainda resistem. O Cine Líbero, no centro, é um deles. Funciona num prédio antigo, com público fiel de cinquentões e sessões de cinema de arte. O dono, Sérgio, conta que mantém a sala no azul, mas mal. “A gente vive de sessão lotada e de três meses de buraco”, diz. “Sem o público fiel, fecha amanhã.”
Por que dói
Há quem diga que cinema de bairro é nostalgia. Talvez seja. Mas acho que é mais do que isso. O cinema de bairro era um dos últimos lugares onde a cidade se encontrava sem precisar consumir. Você não precisava comprar nada além do ingresso. Tinha fila, conversa, desconhecido ao lado. O domingo era coletivo.
Quando a sala fecha, o domingo vira individual. Cada um na sua tela, no seu sofá, no seu algoritmo. A cidade perde mais do que um prédio. Perde um modo de estar junto.
Não tenho solução. Não estou pedindo política pública neste ensaio, embora ela ajudasse. Estou registrando uma perda. Os cinemas de bairro saíram de fininho, e quase ninguém percebeu.
Co-editor do Reach. Escreve sobre cultura e memória urbana. Mestre em comunicação, dá oficinas de narrativa em periferias de São Paulo.