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Reportagem · Trabalho

Costureiras de um galpão abandonado em Recife

Um grupo de moradoras recuperou um espaço esquecido e o transformou em renda. A história da Cooperativa Lince mostra o que a vizinhança pode fazer quando o poder público não chega.

Texto de Helena Prado, no Recife · Publicado em 14 de junho de 2026 · 14 min de leitura

De fora, parece um galpão qualquer. Teto de zinco, porta de metal, um letreiro embaçado onde se lê "Cooperativa Lince". Dentro, oito máquinas de costura batem o ponto ao mesmo tempo, num compasso que parece música. O cheiro é de tecido novo e café passado. É terça-feira, dez da manhã, e o dia de costura já vai adiantado.

O espaço, no bairro de Casa Amarela, no Recife, esteve abandonado por quase doze anos. Era ponto de uso de crack, depósito de entulho, medo. Hoje é uma cooperativa de costura gerida por mulheres do bairro, que produzem uniformes para pequenas empresas e consertam roupas para a comunidade. A transformação demorou três anos. E começou com uma discussão de portão.

Como tudo começou

Maristela, costureira de cinquenta e quatro anos, conta que o estopim foi uma briga de vizinhos. Um grupo de moradoras reclamava do galpão abandonado na esquina. O outro grupo dizia que era problema da prefeitura. Ninguém fazia nada. Maristela decidiu fazer.

A gente falava do galpão há anos. Um dia eu cansei de falar. Fui lá e limpei.

Ela convocou cinco vizinhas. Arregaçaram, varreram, tiraram entulho durante um fim de semana inteiro. O dono do imóvel, que morava fora do estado, soube da limpeza e apareceu. Em vez de processar, topou ceder o espaço por uma quantia simbólica — contanto que servisse para algo útil. As mulheres tinham o espaço. Falta o que fazer nele.

A ideia de uma cooperativa de costura veio da própria história. Quase todas sabiam costurar. Tinham aprendido com mãe, tia, vizinha. Costuravam para a família, para amigas, para a igreja. Ninguém nunca tinha pensado na costura como renda formal. Começaram a pensar.

O primeiro contrato

O salto veio por acaso. Uma padaria do bairro precisava de uniformes para os funcionários. O dono conhecia Maristela. Pediu dezesseis aventais. A cooperativa entregou em duas semanas. O preço coube no orçamento da padaria, a qualidade surpreendeu. Vieram mais pedidos.

Hoje, três anos depois da limpeza, a Lince tem oito cooperadas fixas e uma fila de encomendas que não para de crescer. As mulheres se dividem em turnos, distribuem tarefas, decidem juntas quanto cobrar. A renda não enriquece ninguém — cada uma tira, em média, um salário mínimo a mais por mês —, mas muda o que elas podem decidir. Quem paga a escola do filho. Quem deixa um marido que batia. Quem volta a estudar.

"Não é só o dinheiro", diz Oneide, trinta e sete, que entrou na cooperativa há dois anos. "É o respeito. Aqui eu sou alguém. Não sou só a mulher do fulano."

Como funciona: a cooperativa não tem patrão. Cada cooperada é sócia, decide em assembleia e divide o que sobra após pagar tecido, manutenção e o aluguel simbólico. Não há CLT: a relação é de cooperativismo, regido por lei própria.

O que falta

A história tem lados menos bonitos. A cooperativa ainda não tem maquinário suficiente. Três das oito máquinas são emprestadas. O contrato do galpão é informal, com risco de o dono pedir o espaço de volta. As cooperadas não têm acesso fácil a crédito, porque o sistema financeiro entende pouco de cooperativismo.

Também há o problema clássico. Quando a cooperativa cresce, cresce a tentação de virar empresa — contratar, hierarquizar, profissionalizar. Maristela resiste. "Se a gente virar empresa, volta a ter patrão. Aqui ninguém é patroa." O dilema é real e não tem resposta fácil.

O que a história mostra, no fundo, é que a vizinhança resolve o que o Estado abandona. Não porque queira. Porque precisa. O galpão de Casa Amarela não virou cooperativa por projeto público. Virou porque oito mulheres cansaram de esperar.

Quando saí, às cinco da tarde, as máquinas ainda batiam o ponto. Maristela me acompanhou até a porta. "Volte", disse. "Daqui a um ano a gente tá maior." Eu pretendo voltar.

HP
Helena Prado

Co-editora do Reach. Repórter há 12 anos, cobre cidades e desigualdade. Antes passou por dois jornais diários.